
Uma das principais manchetes nos canais televisivos, jornais e revistas, na semana passada, foi o caso de uma comerciante do Rio de Janeiro mantida refém por um assaltante. Ele a envolvia nos braços, ameaçando explodir uma granada de mão caso não conseguisse um veículo para sua fuga. O desfecho todos sabem: um atirador de elite, com um tiro certeiro, alvejou o fora-da-lei.O noticiário não terminou assim, não. Um dia após o acontecimento, Ana Cristina, a comerciante, recebeu em sua casa o atirador, o qual lhe entregou um vaso de flores, recebido como se fosse seu anjo da “guarda”. Em seu depoimento, a comerciante afirmou: “Eu me sinto muito honrada de ter ele na minha casa, porque graças a Deus e a ele eu estou aqui, junto com a minha família”. Ele, por sua vez, desejou “saúde e sorte. Conte com a gente. Que Deus te proteja”. Abraços. Beijos. Muita emoção. Alívio por estar viva.Por ironia do destino, a família da comerciante trabalha numa ONG, a qual tem por objetivo tentar tirar crianças das ruas a fim de lhes proporcionar um futuro diferente. Ela foi motivada a partir do momento em que alguns assaltantes invadiram sua casa, há exatos 15 anos.O que mais chamou a atenção foi o fato de os dois terem falado em nome de Deus: ela dando graças, e ele desejando proteção. A pergunta que não quer calar é: será que Deus ajudou o atirador a salvar a vida da mulher com seu tiro certeiro?Não creio que a mão de Deus tenha ajudado no desfecho, muito menos tenha apoiado a ação do rapaz. Ele nos ajuda nos dando a vida; Ele ajuda nos dando cérebro e músculos para vencer nossos desafios. Para discernir o certo do errado, por meio do livre-arbítrio.As cadeias estão cheias de histórias como esta. Centenas de presidiários estão dividindo suas celas com outras centenas de presidiários. Quanto custa cada um deles? Existem estimativas de que a cifra chegue próximo de R$ 1,5 mil. Não é pouco. É muito mais do que o salário de um trabalhador honesto; muito mais que o salário de um professor. Paga-se para eles ficarem o dia todo sem produzir um tostão, muito pelo contrário, gerando despesas. Não adianta dizer que são vítimas da sociedade. E o livre-arbítrio onde fica?Será que a pena de morte é solução para a diminuição dos crimes no Brasil? Não. Países que a aplicam continuam a ter contraventores. O dinheiro poderia ser aplicado de outra forma. Quem sabe emprestar um pedaço de terra para que eles pudessem plantar, colher e, literalmente, ir para a cozinha preparar sua própria refeição? Ou seja, plantou, colheu, comeu. Não plantou, não come. Queimou o colchão, vai dormir no chão. Mas não é assim que acontece. Eles pintam e bordam. Têm comida quentinha, enquanto boias-frias, por exemplo, que estão contribuindo para o desenvolvimento do País, trabalham de sol a sol, degustando suas “boias frias”. Trabalham honestamente por menos que um presidiário custa.Nosso sistema carcerário não educa para a correção. Educa para a coerção. São verdadeiras escolas do crime, onde gangues especializadas comandam o tráfico, os sequestros etc. Depois de cumprida a pena, o presidiário fica à mercê da sorte; mais provável do azar. Sua integração é difícil, pois a maioria não se preparou para o momento da saída. Parece que ser bandido dá mais lucro do que trabalhar honestamente. Para o sociólogo Lúcio Castelo Branco, da UnB, “os presídios não recuperam ninguém, muito pelo contrário, são máquinas de aprimoramento da capacidade de lesar o outro”.As soluções são óbvias: aplicar maciçamente em escolas, em material didático, com melhores salários para professores, com capacitações de qualidade, com escolas estruturadas para proporcionar aprendizagem de qualidade. E, certamente, investimento na máquina carcerária.Portanto, Ele nos deu a vida. Nós é que fazemos dela o que melhor nos convier. Como se vê, a justiça do homem é falha, mas a Dele, como diz o dito popular: “Tarda, mas não falha”. Dela ninguém escapa.