No início deste mês o jornal “A Notícia” publicou a reportagem “Vida longa para os catarinenses”. Nela, segundo pesquisa do IBGE, “houve um aumento na esperança de vida onde os homens de SC têm a maior expectativa de longevidade do país e, de forma geral, as mulheres vivem mais em média que os homens”.
Três histórias chamaram à atenção: a da dona Ísis, que aos 82 anos passou a escrever poesias e é voluntária do grupo Alegria de Viver, do SESC, em encontros semanais com crianças. A segunda história é de um médico que, logo cedo, já está deslizando nas ondas do mar com a sua prancha de surfe. Com uma vida bem regrada: “sem açúcar, sem cigarro e com alimentação à base de vegetais e frutas”, ele pretende fugir da osteoporose. Apesar de não estar na casa dos “terceira-idadeanos”, hoje com 56, disse que daqui a 20 anos pretende continuar surfando todas as manhãs e trabalhar à tarde. A terceira história é a do seu Ênio, 69, que está prestes a completar três anos de namoro com a dona Nilda, também do grupo do SESC. Todos se mostraram sorridentes, felizes e de bem com a vida.
Como se vê, está na moda o “culto pela terceira idade”. Aí, então, me lembrei que havia também participado de uma solenidade de formatura de um grupo de alunas, vejam só, alunas da terceira idade, na faculdade Anhanguera. As meninas, num total de 12, receberam seus diplomas após terem cursado um semestre cheio de atividades acadêmicas, entre elas pintura, teatro, canto etc.
Nesta formatura, além das homenagens, elas deram um show cantando três músicas: “Cabecinha no ombro”, “Chalana” e como despedida do “semestre letivo”, “Então é Natal”; uma versão de “Happy Christmas”, de John Lennon. Tive a oportunidade de acompanhá-las ao violão (nada profissional é bem verdade). Mas, o que mais chamou à atenção foi uma interpretação teatral chamada “Chapéu violeta”. Achei tão interessante que vale à pena descrevê-la (me perdoem os que já a conhecem).
O palco estava decorado com um pano drapeado e um espelho onde as “alunas-atrizes” eram chamadas uma a uma. Olhando-se no espelho elas diziam: aos 3 anos, ela olha para o espelho e vê uma rainha; aos 8, ela olha para si e vê uma Cinderela; aos 15, se vê uma freira horrorosa e diz: “mãe, eu não posso ir à escola desse jeito”; aos 20, ela se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, cabelos muito lisos, muito encaracolados, mas decide sair assim mesmo; aos 30, ela olha para e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, cabelos muito lisos, muito encaracolados, mas decide que agora não tem tempo para consertar as coisas, então vai sair assim mesmo; aos 40, ela se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, cabelos muito lisos, muito encaracolados, mas diz: “pelo menos estou limpa” e sai assim mesmo; aos 50, ela olha para si e se vê, como ela é. Então, vai para onde bem entender; aos 60, ela olha para si e se lembra de todas as pessoas que não podem mais se olhar no espelho. Sai de casa e conquista o mundo; aos 70, ela olha para si e vê sabedoria, risos, habilidades. Sai para o mundo e aproveita a vida; aos 80 anos, ela não se incomoda mais em olhar para si. Põe simplesmente o “Chapéu violeta” e vai se divertir com o mundo. “Talvez a gente devesse pegar o Chapéu violeta mais cedo”. (Infelizmente não pude dar o crédito ao autor desta vez, pois é considerado desconhecido).
A onda da terceira idade, neste início de milênio é a de “não deixar a peteca cair”. Já não cabe mais ficar em casa, improdutivamente, esperando o tempo passar. É tempo de curtir a vida, contar histórias, fazer ginástica, sempre com o acompanhamento de um médico especialista, de procurar trabalhos sociais e porque não voltar aos bancos escolares; mesmo porque a idade que conta é a da mente e não a cronológica. E para nós, que ainda não chegamos lá, vamos nos preocupar com os bons exemplos aqui apresentados e não nos preocuparmos tanto com o “Chapéu violeta”.


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