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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Não dê um tiro no seu pé.


Hoje, só não estuda quem não quer. Vejamos Joinville: no início da década de 1980, era possível enumerar as instituições de ensino superior existentes, somando-se apenas os dedos de uma das mãos; e ainda sobravam dedos. Agora, quase no final da primeira década deste terceiro milênio, temos de usar até os dedos dos pés, pois o número cresceu demasiadamente. Este fenômeno, se pudermos assim afirmar, é nacional. A educação virou um comércio – e muito lucrativo. Numa mesma cidade, vários são os cursos na mesma área.Até bem pouco tempo, o percentual candidato/vaga era superior. Atualmente, esta proporção se inverteu; existem mais vagas do que candidatos; muito mais, diga-se de passagem, com exceção dos cursos clássicos e, principalmente, os das instituições públicas, sempre muitos concorridos.Instituições de ensino se proliferam e, com isso, o governo consegue mostrar ao mundo que o número de universitários vem crescendo no País. Todavia, o próprio governo percebeu que o negócio está “galopante” e começa, por meio do Ministério da Educação (MEC), a proibir vestibulares e “passar a faca” em vagas de cursos superiores de má qualidade, além de arquivar centenas de pedidos de novos cursos.Vários são os mecanismos de avaliação para se tentar manter uma educação de qualidade e, espera-se, elevar o nível do ensino. Alguns destes mecanismos são as avaliações do MEC como a Prova Brasil, para estudantes das séries finais do ensino fundamental, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Vamos nos fixar aqui no último. Ele acontecerá em todo o País, no dia 8 de novembro (domingo!), às 13 horas, para alunos ingressantes dos primeiros anos e concluintes de dezenas de cursos, desde administração, ciências contábeis, passando por direito, design de moda, marketing, só para citar alguns. Não há como escapar. Até o ano passado, o MEC selecionava aleatoriamente os alunos de cada curso, em cada instituição. A partir deste ano, todos, sem exceção, terão de participar. A presença deve ser de cem por cento, caso contrário, o aluno não recebe seu diploma de conclusão de curso superior.Existe uma certa ojeriza em torno do Enade. Casos e mais casos começam a acontecer pelo País afora. Muitos universitários pactuam em simplesmente “assinar a prova e entregá-la em branco”. Metaforicamente falando é “dar um tiro no próprio pé”. E já aconteceu várias vezes, em vários Estados brasileiros, inclusive na Cidade dos Príncipes, às margens do Cachoeira. De fonte segura, me relataram que, uma determinada turma de formandos de um determinado curso fizeram o tal pacto. Algum tempo se passou até que os então formados começaram a distribuir seus currículos. Batendo “à porta” de determinada instituição, receberam um grande e sonoro não, dizendo que a instituição “não iria contratar profissionais que tiraram nota zero no Enade”. A consequência disso é que a própria instituição de ensino tem sua avaliação prejudicada. É o feitiço virando contra o feiticeiro.Até que se poderia ir um pouco mais adiante, alcançar o outro lado da moeda: acho que os professores também deveriam ser avaliados; sim, por que não? Afinal, existem aqueles que já se graduaram e ficaram parados no tempo. Aqueles que não procuraram se especializar com capacitações, especializações, cursos de extensão etc. Aqueles que, como os alunos, não leem. Aqueles que têm planos de aulas estão amarelados pelo tempo e, quando algo não dá certo, dizem: “Eu estou dando esta mesma aula a mais de 20 anos e os alunos nunca reclamaram”. É uma questão de tempo; o tal exame também se dará.Portanto, meninos e meninas, futuros profissionais graduados, ao receber seu caderno de questões, responda-o de forma consciente, dando o seu melhor, em benefício próprio, honrando suas instituições. Valorizem sua carreira acadêmica, porque, afinal de contas, foram quatro, cinco anos de dedicação e esforço e não se deve jogar a oportunidade pela janela. Boa sorte a sucesso.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A saúde bucal


“Hoje em dia, parece que a estética está ganhando da saúde bucal.” A afirmação é de propriedade de um dentista. E não é para menos. Conversando com um “médico da boca”, chegamos à conclusão que os cuidados com a beleza estão à frente, dos cuidados com a saúde. Então, vejamos. Cabelos, por exemplo, são mais bem tratados e acariciados do que os dentes. Parece que as pessoas passam mais tempo olhando seus próprios cabelos, do que preocupados com a saúde dental.Não é para menos: ir ao cabeleireiro dói menos que ir ao dentista. Existem lugares que para se “fazer pé e mão” chegam a cobrar R$ 30. Um corte com escova pode alcançar seus R$ 90; e, um retoque de raiz vai além. Os salões de beleza estão sempre cheios. A espera é longa e com hora marcada. Ao passo que os consultórios dentários, muitos estão vazios.O brasileiro não está acostumado a trabalhar a profilaxia, onde o dito popular afirma – é melhor prevenir do que remediar. Dizem os especialistas que o ideal é visitar o dentista duas vezes por ano. Muitos não recorrem a essa prática, nem mesmo uma vez. Nada contra os cabeleireiros, pois tenho amigos e alunos neste ramo. É simplesmente uma forma de comparação. Poderia até ser outra, como o tabagismo já comentado aqui neste espaço. O que se pretende alertar é que, na verdade, a saúde não custa tão caro assim, desde que se encare preventivamente.Um dos grandes motivos da procrastinação, sem dúvida, é a dor. É quase que impossível entrar e sair do consultório sem ela (durante, então, nem se fala!). Para muitos, são momentos de angústia e sofrimento. Porém, está mudando. Antigamente, sofria-se muito mais do que hoje. Na época do sr. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, sentia-se muito mais dor. Eram os “práticos” que cuidavam da boca das pessoas. Aqui no Brasil, este profissional, até pouco tempo, ainda era o responsável por essa prática, especialmente nas cidades menores. Eles aprenderam a lidar com a profissão, sem o devido conhecimento teórico.Atualmente, existem vários cursos nesta área. Aqui mesmo em Joinville já se graduaram vários dentistas e com alto grau de desenvolvimento. Diferentemente de países europeus como Portugal, aqui no País, o dentista tem a sua própria faculdade. Lá, a odontologia é uma especialização da medicina; estamos muito à frente dos dentistas da terra de Camões. Não é pra menos. Somos “exportadores de estética e matéria-prima”. Nossos profissionais estudam mais tempo e possuem um maior número de horas de prática e treinamento. Nas palavras de outro dentista: “A odontologia brasileira está entre as melhores do mundo, com profissionais reconhecidos internacionalmente. Temos um maior número de profissionais para cada indivíduo; no entanto, uma parcela grande da sociedade nunca foi ao dentista. É uma discrepância que grande parte da população não tenha acesso. A questão não será resolvida apenas com o incremento no número de profissionais, mas sim no estabelecimento de políticas públicas que visem à saúde bucal, como parte integrante de uma política de saúde atrelada ao desenvolvimento econômico, social e cultural da população”.Agora, o trabalho do dentista é muito mais que “catar dentes”. Ele tem ao seu dispor materiais e tecnologias que permitem realizar tratamentos até pouco tempo inimagináveis, como é o caso dos implantes dentários. A dor de hoje, nem se compara com as da época do mártir da independência.Neste próximo domingo, dia 25, é o dia da saúde dentária – Dia do Dentista. Vocês são profissionais, não que os demais também não sejam, abençoados por Deus. Particularmente, sempre quando estou aos seus cuidados sinto que a mão Dele está amparando às suas e que os anjos sempre estão por perto contribuindo para o êxito. Portanto, nesta semana, faça um favor a você mesmo: ligue para o seu dentista e o parabenize-o. Aproveite também para cuidar da saúde bucal.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Você trabalha ou só dá aula?



Olá muchachos companheiros de profissão. Força; muita! A história apresenta que em 15 de outubro de 1827, o então primeiro Imperador do Brasil, Dom Pedro 1º, pai da “nossa” Dona Francisca (sim, aquela que começa no centro de Joinville e vai em direção a “Pira”) decreta que “todas as cidades, vilas e lugarejos tivessem suas escolas de primeiras letras”. Exatos 120 anos após, um tal professor Salomão Becker sugeriu aos seus pares que fosse feita uma pausa letiva para se debater as questões da educação, do planejamento das aulas, incentivando a troca de experiências. A iniciativa teve o apoio e foi crescendo até que, em 1967, o Dia do Professor foi instituído como feriado nacional pelo então presidente João Goulart. Seu intento era “comemorar condignamente. [...] Os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enaltecerá a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias”.Como comemorar? Amanhã, creio eu, muitos estarão emergidos em correções de trabalhos e provas para o fechamento de mais um bimestre, ou mesmo “correndo atrás da máquina” na preparação das provas que se avizinham.Professor não tem sábado, não tem domingo. No seu próprio dia, continua trabalhando (sem soldo). Muitos ainda dizem que vida de professor é fácil; “é só dar aula”. Ledo engano. Tem professor que, para complementar a renda mensal, vende perfumes, cosméticos, é sacoleiro. Outros trabalham três turnos e, pasmem, muitas vezes não sobra real para o aprimoramento pessoal. Terminando esta aliteração consonântica, às vezes, chega a ser anormal; é irreal.Quando surgiu, ele era o dono do saber; quando falava, os outros ouviam. Para pedir a palavra, levantava-se a mão; quando alguém abria a porta, todos se levantavam. As provas eram aos sábados; daí o termo sabatina. Antes preocupava-se com a educação acadêmica; hoje, é tia, é profe, é teacher, psicólogo, pai e mãe. Parece que não detém tanto o saber, competindo com a poderosa internet.Não sei se Sócrates lograria tantos frutos quantos plantados em Platão, com o seu método do questionamento, com uma pergunta em cima da própria pergunta, fazendo o discípulo pensar. Hoje, não se quer pensar. Responder é mais fácil. A vantagem do problema a ser resolvido, a da mudança do comportamento, que gera o consequente aprendizado, é compreendida como aula chata.Dizem por aí que professor não trabalha – só dá aula. Hilário é ouvir de outro professor esta mesma pergunta. Existem os que não são professores e dão aulas. Aliás, quase que qualquer um pode virar professor. Existem dezenas de centenas que começam a fazer um “biquinho” e continuam. E os professores que são Professores e não professores ficam calados. Frequentemente, vê-se na televisão, nas páginas d’A Notícia, também, que fulano estava consultando sem nem mesmo ter cursado algum semestre de medicina; engenheiros construindo sem diploma, assim como dentistas e, todos, unem-se para desmascarar o impostor. Mas professor, qualquer um pode ser; e o próprio professor não faz nada para se impor.A matéria prima do docente é o conhecimento. Será que é possível estar em constante aperfeiçoamento? Será que é possível a compra de “um” livro, a cada dois meses, pelo menos, para se estar por dentro do que os grandes pensadores abordam? Será que é possível frequentar cursos de pós-graduação para o aperfeiçoamento contínuo?Triste mesmo é saber que muitos deixam a cátedra por falta de motivação. Outros por desilusão. Não que não sejam preparados para o ofício. Falta mesmo é educação. Aquela que deve ser aprendida em casa. Entretanto, a família também está deixando esta tarefa para os professores. Vocês pais, perdoem-me, pois toda regra tem sua exceção.Será que é uma profissão que está em extinção? Será que nós, os professores, não somos os culpados? Vamos refletir. De qualquer forma, amo o que faço. Para mim, não é profissão; é um prazer estar sempre aprendendo com colegas e alunos – meninos e meninas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Crematório ou não crematório?


Parafraseando Shakespeare, em Hamlet: “crematório ou não crematório, eis a questão”. A frase suscita muita especulação. Mas, afinal, quais são os temores, os mitos, as expectativas que carregam as pessoas quando se trata da hora de nos despedirmos dos nossos entes queridos?A cremação é a prática de incineração do corpo após a morte. Coloquialmente, é a passagem desta vida para outra dimensão. Engraçado é ouvir da maioria que “do outro lado tudo é muito melhor” ou “agora ele está descansando”. Porém, esta mesma maioria não pretende passar “desta para uma melhor” tão cedo.A Índia, por exemplo, desenvolve esta prática milenarmente. Numa conversa informal com alguns colegas professores, perguntei a uma como foi a experiência de ter assistido a um ritual de cremação, naquele país. Foi na cidade de Varanasi, às margens do rio Ganges. Havia um carro que carregava um volume, cheio de flores e um “embrulho de gente” com serragem, gravetos e flores por cima. Durante o processo, não havia cheiro. O único odor sentido foi o de sândalo, uma madeira aromática assim como outras do tipo. Só havia homens. Mulheres e crianças não participam, porque dizem que o choro atrapalha a ascensão da alma. O próprio Ganges é o cemitério. Morrer em Varanasi é o máximo da espiritualidade deles. Como se vê, foge à nossa cultura.Aqui em Joinville, a Câmara de Vereadores está discutindo a questão. Aliás, a discussão já vem de tempo. No final da década de 1990, quando o então prefeito Luiz Henrique da Silveira ainda ocupava o cargo, foi solicitado um estudo à implantação de um crematório. Faz, portanto, dez anos que se pensa na possibilidade de a Manchester Catarinense ofertar esta outra opção de ritual pós-morte. Naquela época, existia uma resistência muito grande; parece que agora a opinião está mudando, pois para a maioria das pessoas perguntadas, a resposta foi favorável.Atualmente, existe um projeto tramitando na Câmara, ao qual o prefeito Carlito Merss solicitou seu veto, para que seja encontrado um melhor local e definição para a questão da “ocupação do solo”. Mas ela não é só política ou burocrática. Dois grandes temas, pelo menos, devem ser considerados hoje em dia: a questão do meio ambiente e a questão religiosa.Com relação ao primeiro, existem duas correntes. Se, por um lado, a queima produz a poluição do ar, por meio da combustão e liberação do CO2, por outro, quando um corpo é enterrado, ocorre o efeito chamado “necrochorume” – o da decomposição, do qual 60% se tornam água; 30%, sais minerais; e 10%, substâncias orgânicas. Todo este material desce até as camadas do subsolo, poluindo desta forma os lençóis freáticos. Além da poluição, vem a questão do depósito: um espaço físico tremendo, comparado com aproximadamente um 1,5 quilo de cinzas; uma economia muito mais racional.Quanto à questão religiosa, existe a crença da ressuscitação; muitos acreditam que os mortos ressuscitarão. Chega a mexer com os brios e crenças pensar de outra forma. Outros já dizem que é a maneira mais fácil e rápida de se voltar ao pó. Para a ciência, após a decomposição, torna-se impossível um organismo voltar a viver. Mas, para Deus, tudo é possível. Se realmente for assim, das cinzas também se ressuscitará; por que temer? É difícil compreender. Faltaria lugar no planeta Terra. Isso não deixa de ser uma forma de pensar materialmente. Entretanto, o que permanece é a alma. O importante é o que a pessoa fez quando ainda estava neste mundo – ou deixou de fazer. O importante é a forma com que ela contribuiu para o engrandecimento da humanidade. O corpo perece; a alma permanece.Joinville já merece um crematório; já merece essa outra opção. É uma questão democrática. Aquele que pensa diferente, que utilize a forma tradicional. Outra coisa: antes que aconteça a hora, que seja feita a doação dos órgãos para aqueles que estão agonizando na dor, ou mesmo não enxergando esta natureza maravilhosa que Deus nos deu. De qualquer forma, tudo irá ou “pelos ares” ou por “água abaixo”.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O tiro certeiro


Uma das principais manchetes nos canais televisivos, jornais e revistas, na semana passada, foi o caso de uma comerciante do Rio de Janeiro mantida refém por um assaltante. Ele a envolvia nos braços, ameaçando explodir uma granada de mão caso não conseguisse um veículo para sua fuga. O desfecho todos sabem: um atirador de elite, com um tiro certeiro, alvejou o fora-da-lei.O noticiário não terminou assim, não. Um dia após o acontecimento, Ana Cristina, a comerciante, recebeu em sua casa o atirador, o qual lhe entregou um vaso de flores, recebido como se fosse seu anjo da “guarda”. Em seu depoimento, a comerciante afirmou: “Eu me sinto muito honrada de ter ele na minha casa, porque graças a Deus e a ele eu estou aqui, junto com a minha família”. Ele, por sua vez, desejou “saúde e sorte. Conte com a gente. Que Deus te proteja”. Abraços. Beijos. Muita emoção. Alívio por estar viva.Por ironia do destino, a família da comerciante trabalha numa ONG, a qual tem por objetivo tentar tirar crianças das ruas a fim de lhes proporcionar um futuro diferente. Ela foi motivada a partir do momento em que alguns assaltantes invadiram sua casa, há exatos 15 anos.O que mais chamou a atenção foi o fato de os dois terem falado em nome de Deus: ela dando graças, e ele desejando proteção. A pergunta que não quer calar é: será que Deus ajudou o atirador a salvar a vida da mulher com seu tiro certeiro?Não creio que a mão de Deus tenha ajudado no desfecho, muito menos tenha apoiado a ação do rapaz. Ele nos ajuda nos dando a vida; Ele ajuda nos dando cérebro e músculos para vencer nossos desafios. Para discernir o certo do errado, por meio do livre-arbítrio.As cadeias estão cheias de histórias como esta. Centenas de presidiários estão dividindo suas celas com outras centenas de presidiários. Quanto custa cada um deles? Existem estimativas de que a cifra chegue próximo de R$ 1,5 mil. Não é pouco. É muito mais do que o salário de um trabalhador honesto; muito mais que o salário de um professor. Paga-se para eles ficarem o dia todo sem produzir um tostão, muito pelo contrário, gerando despesas. Não adianta dizer que são vítimas da sociedade. E o livre-arbítrio onde fica?Será que a pena de morte é solução para a diminuição dos crimes no Brasil? Não. Países que a aplicam continuam a ter contraventores. O dinheiro poderia ser aplicado de outra forma. Quem sabe emprestar um pedaço de terra para que eles pudessem plantar, colher e, literalmente, ir para a cozinha preparar sua própria refeição? Ou seja, plantou, colheu, comeu. Não plantou, não come. Queimou o colchão, vai dormir no chão. Mas não é assim que acontece. Eles pintam e bordam. Têm comida quentinha, enquanto boias-frias, por exemplo, que estão contribuindo para o desenvolvimento do País, trabalham de sol a sol, degustando suas “boias frias”. Trabalham honestamente por menos que um presidiário custa.Nosso sistema carcerário não educa para a correção. Educa para a coerção. São verdadeiras escolas do crime, onde gangues especializadas comandam o tráfico, os sequestros etc. Depois de cumprida a pena, o presidiário fica à mercê da sorte; mais provável do azar. Sua integração é difícil, pois a maioria não se preparou para o momento da saída. Parece que ser bandido dá mais lucro do que trabalhar honestamente. Para o sociólogo Lúcio Castelo Branco, da UnB, “os presídios não recuperam ninguém, muito pelo contrário, são máquinas de aprimoramento da capacidade de lesar o outro”.As soluções são óbvias: aplicar maciçamente em escolas, em material didático, com melhores salários para professores, com capacitações de qualidade, com escolas estruturadas para proporcionar aprendizagem de qualidade. E, certamente, investimento na máquina carcerária.Portanto, Ele nos deu a vida. Nós é que fazemos dela o que melhor nos convier. Como se vê, a justiça do homem é falha, mas a Dele, como diz o dito popular: “Tarda, mas não falha”. Dela ninguém escapa.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A questão do trânsito


O trânsito brasileiro é uma guerra. É motorista de ônibus que não respeita motoqueiro; é motoqueiro que não respeita taxista; é taxista que não respeita ciclista; é ciclista que não respeita pedestre andando nas calçadas e, mais ironicamente neste caso, quando a via possui ciclovia, muitos andam fora dela. Uma ressalva: certamente há uma exceção para cada regra.Tem de tudo. É gente falando ao celular. É gente andando sem o cinto de segurança. É gente ultrapassando em linha dupla. Cadeirinha para crianças não é respeitada. Há pais que deixam seus filhos em pé no meio dos dois acentos dianteiros. Qualquer freada brusca, o resultado não pode ser outro além de choradeira.Porém, acho que as coisas estão melhorando, pelo menos no que diz respeito à dificuldade apresentada quando se pretende obter a permissão para o volante ou mesmo quanto à sua renovação. Ser motorista é muito mais do que ter uma carteira de habilitação no bolso: é ter responsabilidade.Esforços estão sendo protagonizados para dificultar e selecionar melhor os condutores. De acordo com o Código de Trânsito e sua lei 9503/97 (fica sugestão de leitura), todos os condutores devem frequentar aulas teóricas e práticas e os que renovarem suas carteiras devem frequentar o curso de direção defensiva e noções de primeiros socorros. Foi o caso de um amigo “(m)eu”. Estava com a carteira vencida há mais de um ano e não havia percebido. Imediatamente se inscreveu e começou a frequentar as aulas.Como qualquer curso, sempre levo meu caderno para fazer anotações. E neste não foi diferente. Eu me considero um motorista cuidadoso, pois qualquer descuido dói no bolso e na carne. Sempre carrego certas normas de conduta, tais como: ligar o pisca em qualquer situação de mudança de pista; manter distância considerável para com os veículos que antecedem e precedem; sinal vermelho é pare e verde, passagem livre; porém, sempre olhando com cuidado todos os cruzamentos. Crianças no banco traseiro devem usar cinto de segurança (especialmente aquelas com menos de dez anos) e os passageiros também, sem exceção. A lei da vantagem é proibida: ultrapassar em linha dupla, não; pela direita, não; andar na faixa destinada ao transporte coletivo, também não; dar sinal de luz quando a polícia está realizando blitz, nem pensar. Aliás, os contraventores agradecem. Desta forma, faz com que eles optem por vias alternativas. Tem gente que acha legal avisar motoristas que trafegam em via contrária que há policiamento à frente. Evitem.Ao final do curso, sabem o que aprendi? Que o primeiro acidente de carro no Brasil foi protagonizado pelo poeta-escritor Olavo Bilac. O “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, autor do “Hino à Bandeira”, foi o brasileiro que primeiro provocou um acidente automobilístico. O fato se deu em 1897. Ele havia emprestado o carro de um amigo e chocou-se com uma árvore. Acho que o curso deve ser repensado. Na verdade, ele está mais para “curso de conscientização”. Assisti a mais vídeos de acidentes e sangue rolando do que no filme “Sexta-feira 13”, com o mascarado Jason.Com relação às multas, creio que elas deveriam ser registradas em nome do motorista e não à placa do carro, afinal de contas, quem as cometeu foi ele e não esta. A consequência é que, ao se comprar um veículo no Brasil, sempre fica a dúvida: estou comprando um veículo com ou sem multas? Sabe-se de grandes prejuízos e dores de cabeça.O que falta mesmo é prudência, cidadania e conscientização. Precisa-se perceber e adotar a postura de que não estamos sozinhos no trânsito. Todos repartem o mesmo espaço e dois corpos não ocupam o mesmo lugar. Dar a vez é uma questão de bom senso, afinal, estamos todos no mesmo barco: uma vez somos pedestres e outra, motorista. Dirigir consciente é respeitar as leis. Carrego dois princípios: “Se você está com pressa, saia mais cedo” e “se está atrasado, chegue atrasado”. A vida vale mais do que alguns segundos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Brasileiros no exterior


Viver em outro país não é um mar de rosas como pensa a maioria. Antigamente, as pessoas achavam que o dinheiro dava em árvores e se voltava rico. Ledo engano. Neste assunto posso falar de carteirinha. Vivi seis anos da minha vida nos Estados Unidos e posso dizer que foi uma experiência marcante para mim e para a minha família. Já faz alguns anos; 14 para ser mais exato. Ainda me recordo das lições aprendidas.Quando decidi arriscar a vida na terra do Tio Sam, tinha três objetivos bem definidos: o sonho da casa própria, conhecer a América e aprender inglês. São sonhos comuns que a maioria dos brasileiros possui. Graças a muito esforço e dedicação, foi possível atingir os três, mas não foi fácil. Trabalhava de segunda a segunda, literalmente. Costumo dizer que trabalhava segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo.Sim, sete dias por semana, 30 dias por mês, 365 dias por ano. Natal, Ano-novo, Dia dos Pais, das Mães, do Trabalho, Páscoa e tudo que vocês possam imaginar. Lá se dá muito valor ao trabalho. Lá se aprende o que realmente significa trabalho, sem enrolação do tipo um trabalha e três ficam olhando.Claro que o início nunca é fácil. A maior dificuldade a ser enfrentada é a do idioma. Por mais que você aprenda, sempre tem a dificuldade na hora de ouvir, processar, compreender, para então responder o que lhe é solicitado. Eu costumo dizer aos meus alunos: aprenda o máximo que você conseguir. Se você aprender pouco, você sofrerá bastante. Se você aprender bastante, você sofrerá pouco. De qualquer forma, você sofrerá. Se o início não é fácil, o meio e o fim também não. É claro que depois que você domina o idioma as coisas mudam: sofre-se menos.A saudade da família e dos amigos é muito grande. Hoje em dia, tudo é muito mais fácil. Por meio da internet, nos comunicamos com qualquer parte do mundo, online, ao vivo e em cores. A webcam nos ajuda muito neste sentido. Pode-se matar a saudade com um bate-papo na frente do computador. Isto faz com que as pessoas possam se ver cara a cara, mesmo de longe. Na minha época, era só por meio de carta e telefone. E depois da ligação muita choradeira.O bom que é chorávamos juntos, abraçados. Saudades dos amigos, parentes, da cidade. Chorar é um verbo que todo brasileiro conjuga quando está fora do País, e muito. Joinville estava sempre na nossa mente e no coração.Existem também várias perguntas que se pode elencar. Por que muitos se aventuram? Quais são os benefícios e os malefícios? Vale a pena? Para mim, valeu em todos os sentidos. Hoje moro na minha casa. Não posso dizer que conheço o país do Obama 100% porém, parte dos lugares onde passei estão retratados na memória.Eu não ouvi falar, como a maioria, tampouco me disseram. Eu vi, com meus próprios olhos, como eles vivem, falam, comem. Conheci a cultura, os costumes. Por meio do idioma aprendido, faço minha profissão hoje em dia. E além do inglês, aprendi espanhol. Quem mora na Flórida convive com colombianos, porto-riquenhos, cubanos e, na grande maioria, mexicanos. Dá até pra dizer que eles são iguais a nós.Dentre muitas coisas de que sinto falta, uma delas é a profissionalização dos serviços. A carteira de motorista tirei-a num dia. Os bancos não têm fila. O tráfego é o dos sonhos. Todos respeitam as leis de trânsito e não tem o jeitinho brasileiro, muito menos o do americano.Quando se entra em uma loja, se é recebido com um largo sorriso no rosto. Nunca fui atendido por algum funcionário mal humorado, achando que estava me fazendo um favor. A grande frase do comércio é: sua satisfação ou o dinheiro de volta. Se você não está satisfeito com o produto comprado, você recebe o rico dinheirinho de volta. É difícil de acreditar, mas é verdade.Porém, é muito bom quando se retorna. Ver os amigos, a família e novamente Joinville. Esse é o maior prêmio. Quando me perguntam se pretendo voltar, respondo: só se for para ver meu amigo Mickey Mouse. Se valeu a pena, respondo, como disse Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.