
Dia destes, estava na fila do banco esperando minha vez. Peguei minha senha e sentei pacientemente. Sabia que iria passar uns bons minutos até chegar meu número. Não adianta ter pressa mesmo; todos sabem que o atendimento é do tipo conta-gotas. Aliás, não é só nos bancos; qualquer lugar tem filas. Elas chegam a ser quilométricas e só resta esperar. Já faz parte do dia a dia e da cultura do brasileiro.
Como de costume sempre carrego alguma leitura pra passar o tempo e me atualizar. Naquele dia estava folheando as páginas do “A Notícia” e deu para perceber que o número de acidentes de trânsito envolvendo motocicletas cresce assustadoramente. Bem, o calor lá fora era infernal. Também, ultimamente tem feito dias que dá pra sentir saudades dos meses de inverno.
À minha frente sentaram-se duas pessoas. Enquanto eu fazia calmamente uma varredura pelas manchetes, a conversa começou a chamar minha atenção: estavam falando sobre escola, filhos e professores. Deu para perceber que elas não eram daqui da terrinha. Pelo sotaque, acredito que fossem lá de “Estrama”, capital do estado do “Mariuse” (ME), ao norte do Brasil. A conversa era a respeito das férias escolares que se aproximam. Uma perguntou à outra como estavam as crianças na escola, se iriam passar de ano e se estavam fazendo as tarefas propostas pelos professores. A segunda se indignou. Disse que na semana passada teve de ir à escola reclamar com à diretora, porque a professora estava passando muitas tarefas para seus filhos. Eles não tinham mais tempo para brincar. Quanto a passar de ano, todos iriam passar porque ninguém reprova mais. Pensei comigo: aqui na terrinha é diferente. Os pais sempre sentam com seus filhos e estudam juntos. Aqui na terrinha, os pais tomam a lição e diariamente estão vendo os cadernos dos filhos. Quando há reunião nas escolas os auditórios estão sempre cheios. Os pais são comprometidos e conversam periodicamente com os professores. Afinal, estes profissionais passam várias horas junto a eles. Às vezes, aliás, até mais ainda que os próprios pais. Vejam só a responsabilidade.
A conversa estava muito animada, quando a primeira lembrou que no ano passado, sua filha havia reprovado. Ela foi até a escola e conversou com a direção. Disse que se a filha fosse realmente reprovada, ela tiraria a menina da escola. A diretora disse que a mãe não precisava se preocupar, pois sua filha não reprovaria. A outra mãe complementou: também fui chamada à escola e a diretora disse que não gostaria de ter um índice de reprovação muito alto e que apesar de tudo, sua filha estava passada. As gargalhadas foram em uníssono. Pensei mais uma vez: aqui na terrinha não é assim. Aqui, quando os filhos reprovam, os pais compreendem perfeitamente e até agradecem, pois têm consciência de que o filho merece.
Minha senha já estava quase chegando quando ainda consegui ouvir mais uma: a professora de história havia solicitado como tarefa, que os alunos lessem determinado assunto e escrevessem sobre ele. Porém, seu filho usou do artifício do ctrl-c ctlr-v (o da cola). Consequentemente a professora deu uma nota baixa; foi então chamada pela direção que a obrigou a aceitar o trabalho. Como resultado a própria professora “entregou o chapéu”.
Dizem que lá em “Estrama”, na capital daquele estado (“Mariuse”), ao norte do Brasil, os alunos são mal criados e respondões. Eles não têm limites. Falam todos ao mesmo tempo; brigam todos ao mesmo tempo. Querem responder, todos ao mesmo tempo. Criticam, todos, ao mesmo tempo. Ironicamente, nas reuniões os pais agem da mesma forma. Como se vê, o exemplo vem de casa.
Como está a nossa educação? Onde estão os professores? A cada ano, mais e mais professores deixam a educação por falta de apoio. Muitos trocam de profissão, viram motoristas de ônibus, massoterapeutas, vendedores e, se sentem felizes e mais valorizados. Ainda bem que aqui na terrinha é diferente!
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