Brincar com a saúde parece ser uma tônica ultimamente. Todo o dia e todo instante, canais de televisão, emissoras de rádio e jornais, debatem a questão da saúde e seu descaso. Parece que ela vai se afundando, se afundando, cada vez, num movimento constante, até não se sabe aonde, como num poço sem fundo. Descaso generalizado das autoridades. Faltam condições de trabalho, medicamentos, aparelhos para diagnósticos mais precisos e salários - bons salários.
Mais uma vez iremos presenciar, assim que se oficializarem as candidaturas à Presidência da República, se estendendo até o início de outubro, cada um dos postulantes à cadeira mais alta da política brasileira, afirmando que a solução da saúde é simples, que basta boa vontade e que “assim que for eleito”, como num passe de mágica, “tudo se resolverá”. E assim vamos nós, de eleição em eleição, “pagando pra ver” e pagando muito, mesmo porque nossa carga tributária é uma das mais altas do planeta.
Um exemplo desse descaso com a saúde foi visto pela população joinvilense, com a paralisação dos médicos residentes durante um dia, em prol de melhores salários. Pasmem, um médico residente recebe pouco mais de R$ 1,9 mil. É “isso” mesmo, pouco, pouquíssimo, para quem se dedica de corpo e alma e tenta manter a população segura de males e doenças. Mas o que mais chama à atenção é o fato de que tais profissionais, tão dedicados, qualificados, estudados, recebam tão pouco. Um curso superior de medicina não custa menos de R$ 3 mil e “vão lá reais”, inversamente proporcionais ao salário recebido por eles.. E não se trata somente de uma mensalidade; são doze em um ano, multiplicados por pelo menos seis anos. E se vocês creem que os gastos param por aí, se enganam. São despesas com livros, com vestimentas, cursos de atualização, fotocópias etc etc. etc. É triste saber que, após tanta dedicação, empenho e investimento, o salário que o espera é praticamente a metade daquele pago mensalmente para se tornar um profissional graduado.
Certamente não se assegura que, quem mais estuda, receberá um maior salário. Entretanto, por ironia, muitos profissionais, não desmerecendo suas qualidades, ganham mais que um médico residente; e lembrem-se que não se dedicaram a tantas horas de estudo, a tantas pesquisas quanto nossos médicos, e não são responsáveis pelo nosso bem maior – a vida. Só para citar, um pedreiro pode ganhar até perto de R$ 4 mil em um mês. Um outro exemplo pode ser creditado a um jardineiro, que pode chegar pelo menos ao salário de um médico residente, se conseguir uma carteira de clientes fixos (dois por dia), e contar com a sorte de não chover.
E vamos mais longe ainda: a defasagem de salários é para todos os profissionais da saúde. Um técnico em enfermagem recebe R$ 900 “pilas”. É também muito pouco para dar assistência aos médicos, para auxiliar em emergências, nas enfermarias, nas cirurgias. Pelas mãos desses auxiliares de branco passam também nossas vidas. Conheço enfermeiras que, para conseguir um melhor padrão de vida, chegam a dividir seu dia trabalho a dois locais, atingindo a casa das dezesseis horas de labor.
Por alguns dos motivos citados anteriormente é que se torna difícil conseguir Pediatras aos Postos de Saúde. Também deveriam ser mais reconhecidos, pois passam por suas mãos, por exemplo, bebês que não conseguem se manifestar verbalmente e eles não podem errar. O salário é tão minguado, tão irrisório, comparado a toda a carreira acadêmica, que não condiz com a realidade. Como consequência buscam se especializar em outras áreas, deixando lacunas.
Então, até quando este buraco negro na saúde persistirá? Até quando nossas autoridades irão se pronunciar sobre ela somente em época de eleição? E quanto aos residentes, vão continuar com o chapéu na mão?
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